Num Mar de amor me perdi dos outros, me achei em ti.
Que farei agora sem a tua luz, o teu calor?
Que farei eu sem o brilho do teu Amor
Afogada nas cinzas do que amava e que perdi?
Para onde levar meu barco em perigo
À deriva na frialdade da madrugada
Perdida a doçura dessa mão adorada
Que me aconchegava ao peito, porto de abrigo?
As velhas cartas de marear já nada valem
Quando sem norte me perco a cada vaga
De um oceano irado, em turbilhão
Sem voz amada ao leme sucumbo ao medo
E meu barco, meu coração por fim naufraga
Na imensa praia chamada solidão
quarta-feira, 2 de Setembro de 2009
sexta-feira, 28 de Agosto de 2009
Praia Grande
A das Maçãs é larga demais para o meu gosto; se estiver cheia, ou ficamos no meio da multidão com as suas crianças, bolas e cachorros ou afastamo-nos da confusão e ficamos longe do mar.
Prefiro esta. Uma extensão de areia mais comprida e com surpresas escondidas no extremo. Mais estreita: de qualquer ponto onde me sente consigo ver o oceano.
O estacionamento é caótico e creio que nunca conseguirão resolvê-lo a menos que deitem alguma coisa abaixo. Não me parece que o façam. Hoje, como de outras vezes, optei por deixar o carro ao pé de um restaurante com nome de ventania. É um dos meus locais favoritos no inverno - uma alta falésia, o mar bravo, o vento frio na cara e as mãos aquecidas por um pãozinho com chouriço acabadinho de sair do forno. Desde que não chova, claro.
Lembro-me de vir aqui na adolescência, quando já pouco faltava para terminar o ano lectivo. Quase todos levavam o fato de banho na mochila e no fim das aulas lá íamos no autocarro. Bola de volley, nada de protector, e raramente apanhávamos um escaldão. Risos, brincadeiras e muita, muita água.
De uma dessas vezes, à hora do regresso, estávamos ordeiramente à espera do autocarro; mas éramos talvez uns dez e o motorista avisou logo que não caberíamos todos. Meia hora até ao próximo chegar ... se calhar mais valia ... o que acham? Todos de acordo? Boa ideia, sim senhor! Então vamos! Doze km a pé, da praia até à Vila, entre anedotas e cantorias, cansados mas divertidíssimos. Entretínhamo-nos com pouco, realmente.
Rio-me ao recordar. E essas memórias arrastam outras. Pego numa delas e resolvo descer.
Percorro a estrada estreita e dirijo-me ao sítio onde a praia acaba e as arribas se levantam, bem ao fundo. Viro à esquerda, onde uma escada íngreme e enferrujada se cose à rocha. Subo com cuidado e a meio olho para cima e revejo o que me trouxe aqui: uma pegada de dinossauro que pouca gente sabe que existe. Não mudou de sítio (pequena gargalhada). Desço alguns degraus e vejo a prainha escondida, acessível apenas durante a maré baixa. Um parzinho enamorado aproveita o recato para se esquecer do resto do mundo nos braços um do outro.
De novo a enchente de recordações me traz um sorriso aos lábios. Volto a descer e sigo o passeio junto ao areal até acabar por me sentar em frente à velha marisqueira onde as navalheiras se juntavam às imperiais em desfile quando o calor e a falta de sombra tornavam impossível permanecer lá fora por muito tempo.
São muitas as memórias que me ligam a estes sítios.
Desfilo mais algumas no visor da minha mente antes de decidir arquivá-las de novo. Por agora limito-me a ficar aqui sentada com uma garrafa de água fresca e o omnipresente cheiro da maresia a acompanhar-me neste fim de tarde.
Sabes, gostaria que um dia aqui viesses comigo.
Prefiro esta. Uma extensão de areia mais comprida e com surpresas escondidas no extremo. Mais estreita: de qualquer ponto onde me sente consigo ver o oceano.
O estacionamento é caótico e creio que nunca conseguirão resolvê-lo a menos que deitem alguma coisa abaixo. Não me parece que o façam. Hoje, como de outras vezes, optei por deixar o carro ao pé de um restaurante com nome de ventania. É um dos meus locais favoritos no inverno - uma alta falésia, o mar bravo, o vento frio na cara e as mãos aquecidas por um pãozinho com chouriço acabadinho de sair do forno. Desde que não chova, claro.
Lembro-me de vir aqui na adolescência, quando já pouco faltava para terminar o ano lectivo. Quase todos levavam o fato de banho na mochila e no fim das aulas lá íamos no autocarro. Bola de volley, nada de protector, e raramente apanhávamos um escaldão. Risos, brincadeiras e muita, muita água.
De uma dessas vezes, à hora do regresso, estávamos ordeiramente à espera do autocarro; mas éramos talvez uns dez e o motorista avisou logo que não caberíamos todos. Meia hora até ao próximo chegar ... se calhar mais valia ... o que acham? Todos de acordo? Boa ideia, sim senhor! Então vamos! Doze km a pé, da praia até à Vila, entre anedotas e cantorias, cansados mas divertidíssimos. Entretínhamo-nos com pouco, realmente.
Rio-me ao recordar. E essas memórias arrastam outras. Pego numa delas e resolvo descer.
Percorro a estrada estreita e dirijo-me ao sítio onde a praia acaba e as arribas se levantam, bem ao fundo. Viro à esquerda, onde uma escada íngreme e enferrujada se cose à rocha. Subo com cuidado e a meio olho para cima e revejo o que me trouxe aqui: uma pegada de dinossauro que pouca gente sabe que existe. Não mudou de sítio (pequena gargalhada). Desço alguns degraus e vejo a prainha escondida, acessível apenas durante a maré baixa. Um parzinho enamorado aproveita o recato para se esquecer do resto do mundo nos braços um do outro.
De novo a enchente de recordações me traz um sorriso aos lábios. Volto a descer e sigo o passeio junto ao areal até acabar por me sentar em frente à velha marisqueira onde as navalheiras se juntavam às imperiais em desfile quando o calor e a falta de sombra tornavam impossível permanecer lá fora por muito tempo.
São muitas as memórias que me ligam a estes sítios.
Desfilo mais algumas no visor da minha mente antes de decidir arquivá-las de novo. Por agora limito-me a ficar aqui sentada com uma garrafa de água fresca e o omnipresente cheiro da maresia a acompanhar-me neste fim de tarde.
Sabes, gostaria que um dia aqui viesses comigo.
quinta-feira, 27 de Agosto de 2009
Guincho
Uma tarde só para mim.
Chego ao areal imenso onde os meus pés se enterram. Desço o olhar para as minhas pernas, brancas de leite, que pouco sol apanharam este Verão - quase nem se notam as várias cicatrizes nos joelhos que provam que um slalom de bicicleta em terra batida não é grande ideia. Rio-me... há anos que não usava calções mas hoje simplesmente apeteceu-me.
Sento-me na areia dourada, as pernas cruzadas sustendo um livro que provavelmente ficará por ler. Apoio as mãos e deixo a cabeça descair para trás, recebendo o sol na cara.
Não se vê uma única nuvem.
Aqui o vento é uma constante, levantando carneirinhos nas ondas como cabeças de crianças irrequietas à passagem de algo interessante.
Mas quando dorme, como hoje, o mar torna-se num vasto chão espelhado, prata líquida à minha frente onde o sol vem despejar os seus raios. Só o som preguiçoso da ondulação rasa me prova que não é um quadro o que os meus olhos vêem.
Hoje desliguei-me do mundo para ter um bocadinho só meu. Deixei o telemóvel no carro; aliás, deixei tudo no carro menos o livro e as chaves. Sem contacto, sem identificação, sou um ser anónimo pousado na areia mansa. Sorrindo, deixo-me ficar assim, sem pensar em nada, recolhendo prazer da simples observação das pequenas franjas de espuma que se espraiam pachorrentamente a poucos metros dos meus pés.
Tanta paz nas pequenas coisas. Entre o Sol e o Mar.
Chego ao areal imenso onde os meus pés se enterram. Desço o olhar para as minhas pernas, brancas de leite, que pouco sol apanharam este Verão - quase nem se notam as várias cicatrizes nos joelhos que provam que um slalom de bicicleta em terra batida não é grande ideia. Rio-me... há anos que não usava calções mas hoje simplesmente apeteceu-me.
Sento-me na areia dourada, as pernas cruzadas sustendo um livro que provavelmente ficará por ler. Apoio as mãos e deixo a cabeça descair para trás, recebendo o sol na cara.
Não se vê uma única nuvem.
Aqui o vento é uma constante, levantando carneirinhos nas ondas como cabeças de crianças irrequietas à passagem de algo interessante.
Mas quando dorme, como hoje, o mar torna-se num vasto chão espelhado, prata líquida à minha frente onde o sol vem despejar os seus raios. Só o som preguiçoso da ondulação rasa me prova que não é um quadro o que os meus olhos vêem.
Hoje desliguei-me do mundo para ter um bocadinho só meu. Deixei o telemóvel no carro; aliás, deixei tudo no carro menos o livro e as chaves. Sem contacto, sem identificação, sou um ser anónimo pousado na areia mansa. Sorrindo, deixo-me ficar assim, sem pensar em nada, recolhendo prazer da simples observação das pequenas franjas de espuma que se espraiam pachorrentamente a poucos metros dos meus pés.
Tanta paz nas pequenas coisas. Entre o Sol e o Mar.
quarta-feira, 26 de Agosto de 2009
Guia
Ali, o vento adormece.
A poucos metros os carros passam a velocidades desiguais, relembrando-me que o bulício continua perto. Mas alguns passos à frente deixo de os ouvir.
Caminho pela vereda entre árvores jovens e arbustos bem comportados, detenho-me junto ao muro baixo e liberto o olhar sobre o imenso azul. O espaço que partilhei contigo é o meu canto de paz, onde abro os braços para colher o calor do sol e saborear a brisa. Uns minutos de contemplação preenchem-me como se me recarregassem de ânimo. Pessoas passam sem me prestar atenção e agradeço-lhes silenciosamente o não quebrarem aqueles momentos frágeis em que evoco memórias e as integro no Eu.
Sigo o caminho de saibro até à esplanada e subo as pranchas de madeira onde os teus passos ecoaram ao lado dos meus. Sento-me no canto do costume, acompanhada de um livro e peço o chá do costume que deixo arrefecer lentamente. Alheio-me de tudo e toda a gente, imersa num mundo paralelo entre as páginas do livro da semana. As vozes soam mas não as ouço; só o murmúrio do mar, lá em baixo, sempre presente, me acompanha nesta viagem do espírito.
Retine um alarme interno no meu cérebro e olho para o relógio. Um último golo de menta quente-fresca e regresso pela vereda onde pela última vez as nossas mãos se encontraram. Questiono-me se alguma vez lá voltarás comigo, ciente de que ao menos nessa altura - se chegar - não te irás perder no caminho de volta.
Sento-me ao volante com as janelas abertas para que entre a brisa e olho uma última vez para o oceano, sempre igual mas sempre diferente, onde o meu coração sossega.
Respiro fundo e arranco, grata pelos pequenos intervalos de calma junto ao mar onde o teu eco me acompanha e regresso por fim à vida acelerada de todos os dias.
A poucos metros os carros passam a velocidades desiguais, relembrando-me que o bulício continua perto. Mas alguns passos à frente deixo de os ouvir.
Caminho pela vereda entre árvores jovens e arbustos bem comportados, detenho-me junto ao muro baixo e liberto o olhar sobre o imenso azul. O espaço que partilhei contigo é o meu canto de paz, onde abro os braços para colher o calor do sol e saborear a brisa. Uns minutos de contemplação preenchem-me como se me recarregassem de ânimo. Pessoas passam sem me prestar atenção e agradeço-lhes silenciosamente o não quebrarem aqueles momentos frágeis em que evoco memórias e as integro no Eu.
Sigo o caminho de saibro até à esplanada e subo as pranchas de madeira onde os teus passos ecoaram ao lado dos meus. Sento-me no canto do costume, acompanhada de um livro e peço o chá do costume que deixo arrefecer lentamente. Alheio-me de tudo e toda a gente, imersa num mundo paralelo entre as páginas do livro da semana. As vozes soam mas não as ouço; só o murmúrio do mar, lá em baixo, sempre presente, me acompanha nesta viagem do espírito.
Retine um alarme interno no meu cérebro e olho para o relógio. Um último golo de menta quente-fresca e regresso pela vereda onde pela última vez as nossas mãos se encontraram. Questiono-me se alguma vez lá voltarás comigo, ciente de que ao menos nessa altura - se chegar - não te irás perder no caminho de volta.
Sento-me ao volante com as janelas abertas para que entre a brisa e olho uma última vez para o oceano, sempre igual mas sempre diferente, onde o meu coração sossega.
Respiro fundo e arranco, grata pelos pequenos intervalos de calma junto ao mar onde o teu eco me acompanha e regresso por fim à vida acelerada de todos os dias.
quinta-feira, 20 de Agosto de 2009
Boca do Inferno
Hoje não calcei as sandálias, aquelas sandálias finas de que gosto.
Não, hoje preciso de mobilidade, preciso de voltar por momentos aos meus tempos de maria-rapaz, cabra montesa, trepadora, alpinista a fingir, rainha das encostas mais ou menos escarpadas. Hoje trouxe os meus ténis, bons para correr, trepar ou fugir. Ou apenas para caminhar em solo irregular e pedregoso.
Paro o carro e desligo as luzes.
Fico alguns momentos sentada no interior, num silêncio quebrado pelo bombar abafado dos altifalantes de outro veículo próximo. Saio devagar e o vento lança-me os cabelos soltos sobre a cara, inundando-me as narinas do cheiro frutado do amaciador. Amarro o cabelo com um elástico que costumo trazer no bolso, tranco o carro e afasto-me.
Adiante, alguns jovens, falando quase aos berros sobre a forte batida da música (mas aquilo é música ?), riem alto e bebem cervejas em série, a ajuizar pelas garrafas que jazem a seus pés como um exército derrotado. Não me vêem. Trouxe roupa escura, embora seja hábito usar roupa escura. Mas hoje confundo-me com a noite, negro sob o negrume da noite sem luar.
Escolhi a hora de propósito para não ter que explicar a algum vigilante mais ou menos atento que sei perfeitamente que o sítio é perigoso mas que o conheço muito bem.
Uma onda rebenta com fragor e deposita num fiapo de vento gotas fugazes de maresia que me reacendem a memória de Verões perdidos no tempo, dias solarengos em que aquela mesma maresia me despertava o riso enquanto trepava mais um pouco, pé aqui, mão ali, a cana presa nas rochas em baixo e eu deitada ao sol nas rochas em cima, imperceptível a quem não se aventurasse mais perto como se estivesse oculta nalguma desconhecida dobra do espaço.
Os meus pés ainda sabem os caminhos invisíveis sobre as rochas e levam-me até à beira do meio-poço onde o mar ruge ao fundo, protestando contra a prisão incompleta de onde se evade a cada vaga mas de onde não consegue, de facto, ir embora.
Sobre a rocha a pique abro o peito e tiro o rendado dos momentos guardados entre as cordas do mecanismo que me bate cá dentro, maquineta que sopra incessantemente o teu nome no meio do seu surdo tiquetaquear. Folheio-os, detendo-me aqui e ali em olhares, toques e sabores cheios de significantes e significados até chegar ao último pedaço, ao último fragmento, ao recorte de tempo onde revivo o momento em que me apercebi que nada mais era para ti a não ser uma página já virada, uma história já lida e vivida.
Enovelo as recordações com um travo ácido, deposito sobre elas um breve beijo antes de as deixar cair sobre a branca espuma das ondas que se fazem ouvir metros abaixo.
Afasto-me e conduzo, regresso a casa vencida, ainda em silêncio, ainda ouvindo o teu nome a cada batimento do coração, oca, vazia de mágoas mas também de amor, vazia, vazia de tudo o que fomos um dia, todos os sonhos e projectos incumpridos que recordo de cada vez que o sal do mar que trago nos olhos me invade os lábios - mas que jazem agora no fundo rochoso sob as águas da Boca, para sempre inacessíveis, para sempre perdidos.
Não, hoje preciso de mobilidade, preciso de voltar por momentos aos meus tempos de maria-rapaz, cabra montesa, trepadora, alpinista a fingir, rainha das encostas mais ou menos escarpadas. Hoje trouxe os meus ténis, bons para correr, trepar ou fugir. Ou apenas para caminhar em solo irregular e pedregoso.
Paro o carro e desligo as luzes.
Fico alguns momentos sentada no interior, num silêncio quebrado pelo bombar abafado dos altifalantes de outro veículo próximo. Saio devagar e o vento lança-me os cabelos soltos sobre a cara, inundando-me as narinas do cheiro frutado do amaciador. Amarro o cabelo com um elástico que costumo trazer no bolso, tranco o carro e afasto-me.
Adiante, alguns jovens, falando quase aos berros sobre a forte batida da música (mas aquilo é música ?), riem alto e bebem cervejas em série, a ajuizar pelas garrafas que jazem a seus pés como um exército derrotado. Não me vêem. Trouxe roupa escura, embora seja hábito usar roupa escura. Mas hoje confundo-me com a noite, negro sob o negrume da noite sem luar.
Escolhi a hora de propósito para não ter que explicar a algum vigilante mais ou menos atento que sei perfeitamente que o sítio é perigoso mas que o conheço muito bem.
Uma onda rebenta com fragor e deposita num fiapo de vento gotas fugazes de maresia que me reacendem a memória de Verões perdidos no tempo, dias solarengos em que aquela mesma maresia me despertava o riso enquanto trepava mais um pouco, pé aqui, mão ali, a cana presa nas rochas em baixo e eu deitada ao sol nas rochas em cima, imperceptível a quem não se aventurasse mais perto como se estivesse oculta nalguma desconhecida dobra do espaço.
Os meus pés ainda sabem os caminhos invisíveis sobre as rochas e levam-me até à beira do meio-poço onde o mar ruge ao fundo, protestando contra a prisão incompleta de onde se evade a cada vaga mas de onde não consegue, de facto, ir embora.
Sobre a rocha a pique abro o peito e tiro o rendado dos momentos guardados entre as cordas do mecanismo que me bate cá dentro, maquineta que sopra incessantemente o teu nome no meio do seu surdo tiquetaquear. Folheio-os, detendo-me aqui e ali em olhares, toques e sabores cheios de significantes e significados até chegar ao último pedaço, ao último fragmento, ao recorte de tempo onde revivo o momento em que me apercebi que nada mais era para ti a não ser uma página já virada, uma história já lida e vivida.
Enovelo as recordações com um travo ácido, deposito sobre elas um breve beijo antes de as deixar cair sobre a branca espuma das ondas que se fazem ouvir metros abaixo.
Afasto-me e conduzo, regresso a casa vencida, ainda em silêncio, ainda ouvindo o teu nome a cada batimento do coração, oca, vazia de mágoas mas também de amor, vazia, vazia de tudo o que fomos um dia, todos os sonhos e projectos incumpridos que recordo de cada vez que o sal do mar que trago nos olhos me invade os lábios - mas que jazem agora no fundo rochoso sob as águas da Boca, para sempre inacessíveis, para sempre perdidos.
Cabo da Roca
Rocha, entenderia. Roca ... não.
Rochas, rochas, rochas e Mar a perder de vista.
Olho em volta e reparo nela. Os meus olhos detêm-se na figura sentada direita, com as mãos numa posição de abandono sobre os joelhos metidos para dentro.
Tem um ar inescrutável e não consigo deixar de a olhar. Meditará sobre o seu futuro? Ou sobre o seu passado? Não faço ideia. Não ouso aproximar-me, poderia incomodá-la. Lentamente, o semblante quase impassível muda, ostentando agora meia sugestão de sofrimento interior. As sobrancelhas estão franzidas e poderia jurar que morde o lábio. Indecisa? Aflita? Não sei.
Alguns turistas vagueiam tirando fotografias. Ignoram-na como se ali não estivesse, caminham até se deter em frente dela, falando muito alto.
"Olha-m'isto! E se eu caísse daqui ??"
"Pára com as palhaçadas, pá! Ouviste ?!"
"Não sejas chata, vá ... anda cá olhar para o mar, vê lá que lindo!"
Aproximam-se da beira da falésia, a menos de um metro dela, como que inconscientes da sua presença. Caminham demasiado perto do precipício até chegarem ao pé de mim.
"Então, tirou alguma foto gira ?" Sorrio sem responder.
"Deve ser estrangeiro, não lhe ligues e vamos."
"Cambada de bifes, pensam que isto é tudo deles ..."
Afastam-se, barulhentos como chegaram, pisando chorões. Em breve não passam de um ruído distante de risos e exclamações.
Então ela levanta-se e reparo que está descalça. Dirige-se para o sítio onde ainda há pouco estavam os incómodos turistas e olha para baixo. O meu coração falha uma batida. Estará a pensar atirar-se dali?
Quero ir até ela, dissuadi-la, dizer-lhe que deve haver decerto algo por que viver - mas não consigo mover-me, hipnotizado por aquela imagem em movimento sereno.
Avança e recua ao longo do rebordo, olhando, medindo, espreitando.
A dada altura senta-se no chão com os pés pendurados pela beira do abismo. Quero chamá-la mas nem um som me sai da boca. Apoia-se nas mãos e num instante desliza para baixo, abandonando o meu campo de visão.
Liberto da minha imobilidade, caminho depressa até ao sítio onde estava. Vejo-a descendo a escarpa como se fora um insecto com cola nos dedos, agarrando-se a pequenas reentrâncias e tufos de vegetação, com movimentos rápidos mas calculados. Em breve atinge a base do rochedo e as ondas lambem-lhe já os pés nus, batem nas rochas mais à frente e molham-na de salpicos. Trepa a uma dessas rochas e olha para o mar durante alguns minutos.
Subitamente, ante a minha mirada incrédula, despe-se e fica nua sob o sol, diante do mar cuja ondulação agreste levanta ao rebentar gotículas a vários metros de altura. Abre os braços como se colhesse a luz na pele, planta em forma humana absorvendo energia para a fotossíntese. Avança mais um passo e parece respirar fundo. Vira-se e vê-me ali em cima. Sorri e acena. Com a boca seca olho para ela, vendo detalhes em que não tinha reparado e que a tornam diferente de qualquer mulher que já tenha visto. Volta-se de novo e mergulha na cava da onda seguinte, para reaparecer uns metros à frente. Acena de novo e torna a mergulhar. Não a volto a ver.
Talvez seja do sol. Um golpe de calor. Uma insolação. Mas sinto-me calmo e lúcido, nada de febre nem dor de cabeça.
Talvez seja melhor não contar a ninguém o que presenciei porque não acreditarão em mim. Será pois o meu maior segredo: que aqui, onde a terra acaba e o mar começa, vi uma sereia voltar para casa.
Rochas, rochas, rochas e Mar a perder de vista.
Olho em volta e reparo nela. Os meus olhos detêm-se na figura sentada direita, com as mãos numa posição de abandono sobre os joelhos metidos para dentro.
Tem um ar inescrutável e não consigo deixar de a olhar. Meditará sobre o seu futuro? Ou sobre o seu passado? Não faço ideia. Não ouso aproximar-me, poderia incomodá-la. Lentamente, o semblante quase impassível muda, ostentando agora meia sugestão de sofrimento interior. As sobrancelhas estão franzidas e poderia jurar que morde o lábio. Indecisa? Aflita? Não sei.
Alguns turistas vagueiam tirando fotografias. Ignoram-na como se ali não estivesse, caminham até se deter em frente dela, falando muito alto.
"Olha-m'isto! E se eu caísse daqui ??"
"Pára com as palhaçadas, pá! Ouviste ?!"
"Não sejas chata, vá ... anda cá olhar para o mar, vê lá que lindo!"
Aproximam-se da beira da falésia, a menos de um metro dela, como que inconscientes da sua presença. Caminham demasiado perto do precipício até chegarem ao pé de mim.
"Então, tirou alguma foto gira ?" Sorrio sem responder.
"Deve ser estrangeiro, não lhe ligues e vamos."
"Cambada de bifes, pensam que isto é tudo deles ..."
Afastam-se, barulhentos como chegaram, pisando chorões. Em breve não passam de um ruído distante de risos e exclamações.
Então ela levanta-se e reparo que está descalça. Dirige-se para o sítio onde ainda há pouco estavam os incómodos turistas e olha para baixo. O meu coração falha uma batida. Estará a pensar atirar-se dali?
Quero ir até ela, dissuadi-la, dizer-lhe que deve haver decerto algo por que viver - mas não consigo mover-me, hipnotizado por aquela imagem em movimento sereno.
Avança e recua ao longo do rebordo, olhando, medindo, espreitando.
A dada altura senta-se no chão com os pés pendurados pela beira do abismo. Quero chamá-la mas nem um som me sai da boca. Apoia-se nas mãos e num instante desliza para baixo, abandonando o meu campo de visão.
Liberto da minha imobilidade, caminho depressa até ao sítio onde estava. Vejo-a descendo a escarpa como se fora um insecto com cola nos dedos, agarrando-se a pequenas reentrâncias e tufos de vegetação, com movimentos rápidos mas calculados. Em breve atinge a base do rochedo e as ondas lambem-lhe já os pés nus, batem nas rochas mais à frente e molham-na de salpicos. Trepa a uma dessas rochas e olha para o mar durante alguns minutos.
Subitamente, ante a minha mirada incrédula, despe-se e fica nua sob o sol, diante do mar cuja ondulação agreste levanta ao rebentar gotículas a vários metros de altura. Abre os braços como se colhesse a luz na pele, planta em forma humana absorvendo energia para a fotossíntese. Avança mais um passo e parece respirar fundo. Vira-se e vê-me ali em cima. Sorri e acena. Com a boca seca olho para ela, vendo detalhes em que não tinha reparado e que a tornam diferente de qualquer mulher que já tenha visto. Volta-se de novo e mergulha na cava da onda seguinte, para reaparecer uns metros à frente. Acena de novo e torna a mergulhar. Não a volto a ver.
Talvez seja do sol. Um golpe de calor. Uma insolação. Mas sinto-me calmo e lúcido, nada de febre nem dor de cabeça.
Talvez seja melhor não contar a ninguém o que presenciei porque não acreditarão em mim. Será pois o meu maior segredo: que aqui, onde a terra acaba e o mar começa, vi uma sereia voltar para casa.
Auto-retrato
Sou Vaso - minha alma de água
entorna-se a cada soluço
até ser praia em maré vazante
Sou Onda - atiro-me à rocha
tentando trazer comigo
pedaços de recordações
Sou Nuvem - passo ligeira
levada nas asas do vento
sem poder parar onde quero
Sou Estrela - visível ao longe
fora de alcance, embora
ninguém tente se aproximar
Sou Lua - astro apagado
brilho com luz emprestada
e eclipso-me da tua memória
Sou Pedra - espero, teimosa
ao fundo do mesmo caminho
que me mostraste um dia
Sou Mulher - e amo-te assim
sob todas as formas que contenho
sob todas as formas de mim
entorna-se a cada soluço
até ser praia em maré vazante
Sou Onda - atiro-me à rocha
tentando trazer comigo
pedaços de recordações
Sou Nuvem - passo ligeira
levada nas asas do vento
sem poder parar onde quero
Sou Estrela - visível ao longe
fora de alcance, embora
ninguém tente se aproximar
Sou Lua - astro apagado
brilho com luz emprestada
e eclipso-me da tua memória
Sou Pedra - espero, teimosa
ao fundo do mesmo caminho
que me mostraste um dia
Sou Mulher - e amo-te assim
sob todas as formas que contenho
sob todas as formas de mim
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