sexta-feira, 23 de julho de 2010

Pianíssimo

Dançam meus olhos ao ver-te
sopram faíscas como pirilampos
e contam a alegria que escondo
atrás de um pequeno sorriso

Voam as palavras veladas
como borboletas que se cortejam
entre as frases que dizemos
para ouvintes distraídos

Mas os olhos tudo dizem
as perguntas, as dúvidas
A saudade subitamente apagada
quando se alinham com os teus

De olhos nos olhos sob o luar
descerram-se então os lábios...


E pronunciamos em surdina o segredo
absoluto do Amor

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Às cinco no Verão

Faz calor na sala. Torna-se insuportável permanecer ali sentada.
Saio para uma varanda tão larga que parece um terraço e acendo um cigarro. As teias de aranha voltaram a acumular-se no interior da balaustrada como enfeites de um Natal esquecido. Evito encostar-me para não sujar as calças.

Fruto de uma brisa leve que ondula os ramos dos pinheiros, está mais fresco na rua do que lá dentro... quem me dera poder trazer os tarecos para aqui. Iúcas espreitam do subnível das floreiras, enquanto no superior os canteiros quadrados depositados na sombra são ninhos de arbustos semi-ressequidos.
Outras árvores se perfilam entre os telhados. Dos ramos pendem berloques penugentos, como cerejas gigantescas. Não sei que árvores são, mas gosto de observar a dança dos seus braços lenhosos.

No céu passam velozes alguns pardais. Mais acima, outros pares de asas assemelham-se a andorinhas. Serão?
As gaivotas não andam hoje por aqui, sinal de que o mar estará sossegado. Quando as vejo sobrevoar o terraço piando, recordo o ditado e sorrio.

Atiro o cigarro para o cinzeiro metálico do canto e o fumo de aroma a cereja fica a evolar-se do tabuleiro. Com o dedo dou um piparote numa formiga atrevida que trepou pelo meu bloco de notas pousado sobre o murete da varanda.
Não há aqui comida para ti, pequenina. Nem vale a pena deixares o teu rasto.
Eu e o meu bloco só cá estamos de passagem.