sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Irian

No ar, no vento
no fogo e na tempestade

Voo.

E sou vento, e sou trovão
Sou tempestade liberta
Sou fogo indomado

De alma em chamas
vivo.

Sou.
Amo.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Geometrias

Cruzámo-nos em queda livre
e orbitámo-nos em contemplação
admiraste as minhas incontadas faces
e, tridimensional como sempre fui
imaginei-me icosaedro para ti

Mas tu, tu procuravas um fractal
e eu nunca fui modelo homogéneo
partiste além das nebulosas
em busca da perfeição plana,
minusculamente reflectida
em dendrites replicadas

Hoje sei-me fulerite
nas minhas dimensões complexas
roda a pureza além do diamante,
qual futebola de cristal,
nanocarbónica onda-partícula
à espera do teu toque
para viajar para lá da luz

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Nas ondas do Ar

Nas costas do vento deslizas
como que sonhando acordado
sobes, desces, rodopias
volteias como se surfasses
nas ondas do ar

E corres voando
e voas correndo
contra o vento quente
e digo-te adeus

Vejo-te ao longe, já longe
confundido com o horizonte
perco-te a silhueta na distância
onde o vento te levou deslizando
nas ondas do ar

E corres voando
e voas correndo
contra o vento frio
e digo-te adeus

Espero-te no sopé da montanha
para onde voltas, hesitante,
cansado, transido de frio,
caminhando, já nem voas
nas ondas do ar

E na noite fria aninha-te em mim, deixa-me ser-te abrigo
E na noite de cansaço aninha-te em mim, deixa-me ser-te energia
E na noite de desalento aninha-te em mim, deixa-me ser-te apoio
E amar-te, amor, amar-te

Na noite encantada voamos
juntos, amor, contra o vento
nas ondas do ar

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Pianíssimo

Dançam meus olhos ao ver-te
sopram faíscas como pirilampos
e contam a alegria que escondo
atrás de um pequeno sorriso

Voam as palavras veladas
como borboletas que se cortejam
entre as frases que dizemos
para ouvintes distraídos

Mas os olhos tudo dizem
as perguntas, as dúvidas
A saudade subitamente apagada
quando se alinham com os teus

De olhos nos olhos sob o luar
descerram-se então os lábios...


E pronunciamos em surdina o segredo
absoluto do Amor

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Às cinco no Verão

Faz calor na sala. Torna-se insuportável permanecer ali sentada.
Saio para uma varanda tão larga que parece um terraço e acendo um cigarro. As teias de aranha voltaram a acumular-se no interior da balaustrada como enfeites de um Natal esquecido. Evito encostar-me para não sujar as calças.

Fruto de uma brisa leve que ondula os ramos dos pinheiros, está mais fresco na rua do que lá dentro... quem me dera poder trazer os tarecos para aqui. Iúcas espreitam do subnível das floreiras, enquanto no superior os canteiros quadrados depositados na sombra são ninhos de arbustos semi-ressequidos.
Outras árvores se perfilam entre os telhados. Dos ramos pendem berloques penugentos, como cerejas gigantescas. Não sei que árvores são, mas gosto de observar a dança dos seus braços lenhosos.

No céu passam velozes alguns pardais. Mais acima, outros pares de asas assemelham-se a andorinhas. Serão?
As gaivotas não andam hoje por aqui, sinal de que o mar estará sossegado. Quando as vejo sobrevoar o terraço piando, recordo o ditado e sorrio.

Atiro o cigarro para o cinzeiro metálico do canto e o fumo de aroma a cereja fica a evolar-se do tabuleiro. Com o dedo dou um piparote numa formiga atrevida que trepou pelo meu bloco de notas pousado sobre o murete da varanda.
Não há aqui comida para ti, pequenina. Nem vale a pena deixares o teu rasto.
Eu e o meu bloco só cá estamos de passagem.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pessoalidades

Pessoa e as suas palavras.
Meditação; inspiração.
Vontades redespertas, gritos calados.

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde que quer que estejamos.

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde quer que moremos, tudo é alheio
Nem fala língua nossa.
Façamos de nós mesmos o retiro
Onde esconder-nos, tímidos do insulto
Do tumulto do mundo.
Que quer o amor mais que não ser dos outros?
Como um segredo dito nos mistérios,
Seja sacro por nosso.
{Ricardo Reis}
Dizia o outro, heterónimo do mestre, duas realidades dissonantes escondidas num só, pessoa, substantivo, Pessoa de nome, não és Pessoa como o mestre, mas é o teu nome e não o dele que digo baixinho quando em sonhos te vejo a face, suspeito que nessa altura sorria, sorrindo a dormir, sorrindo sonhando em estar a teu lado me fico.

Amores vários teve, essa pessoa Pessoa, tantas palavras para Lídia, amor sereno, momentos partilhados de infância adulta, talvez adulta infantilidade, mas outras existiram, outras o terão ouvido, quererias fazer de mim Lídia honrando a pessoa e o Pessoa, e deixarmo-nos ficar à beira rio sem desassossegos?

Eu é que não, não o quero, sujeito-me ao silêncio porque tem que ser, mas não gosto, não quero, antes o desassossego, o amor não é mais sagrado se for secreto, nem mais doce, é sim miríade de pequenos momentos de deleite e manancial de grandes momentos felizes quando assumido, quando vivido sem medos, que não seja sacro mas sim humano, como humana sou e tu és, e como humana te desejo, como humana te amo mas de forma tão próxima ao divino porque divina é a união quando é por ambos desejada.

Como se cada beijo
Fora de despedida,
Minha Cloe, beijemo-nos, amando.
Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia;
E que no mesmo feixe
Ata o que mútuos fomos
E a alheia soma universal da vida.
{Ricardo Reis}

Lídia não quero ser, toma a minha mão, esculpe-me Cloe nos teus sentidos porque quero beijar-te e sentir-te como se a última hora estivesse a chegar, o barco ou o avião ou o último comboio-jacto para fora da Terra e anos-luz nos passassem a separar, não doeria talvez mais do que dói agora que tanto te quero, que tanto me quero dar-te, dar-me, dar-me-te dando tudo toda eu tudo de mim, mas só uma lágrima rebelde toca estes lábios que quisera fossem tomados de assalto pelos teus para de seguida deslizarmos da voracidade do desejo adiado para a doçura do tempo esquecido e do tempo que fica longe, muito longe quando se beija com toda a alma, fusão, partilha, sinfonia de almas vibrando harmonicamente, soma universal da vida, esta mesma vida em cujo caminho anseio os teus passos junto aos meus.


E na folha jorram todos os sentimentos feitos palavra, diferentes, belas as de Pessoa e pobres as minhas, iguais talvez em intensidade, Pessoa e eu, fingidores ambos de verdades escondidas.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Até sempre

De tantas palavras
proferidas
tantos risos, emoções
tantas coisas
tantos momentos
houve algo que não disseste
esperando talvez
ter tempo
como se o tempo
pudesse ser dominado
tido
controlado
como se não fosse ele
que nos tem a nós
presos nos fios
nas voltas da teia
nas voltas da vida
esta puta de vida
que hoje te levou...
Deixaste um vazio
que tento preencher
com a palavra
entre tantas palavras
que não chegaste a dizer
a mesma palavra
que não chegaste a ouvir:
ADEUS, amigo, ADEUS
Até qualquer dia
Até sempre!