Carne viva. Sim, estou em carne viva.
Ninguém sabe, ninguém repara. Apenas comentam que pareço mais sisuda, mais calada do que o costume, eu, que sempre falava com um secreto sorriso ao canto dos lábios que mais ninguém entendia.
Arde e não posso aplicar qualquer bálsamo, não posso coçar, não posso sequer aliviar a intensa sensação de queimadura com um pouco de água.
Escorre provavelmente uma lenta aguadilha amarelada cujo trajecto irrita os sítios por onde passa. Daí que cada vez doa e arda mais.
Provavelmente porque não a vejo, não vejo nada.
Entendo finalmente o que dizem os amputados, que têm comichão, que têm dores no membro que perderam.
Entendo-os porque aqui, onde ninguém consegue ver, há uma ferida supurante, escondida, carne em carne viva que dói, que arde, vazio onde ainda sinto o pedaço de coração que me foi arrancado à força quando me disseste adeus, tão imperfeitamente cauterizado pelo gume gelado do silêncio que deixaste para trás.
Estou em carne viva e isso dói, mais do que possas imaginar.
Por isso volta, volta por um breve momento mas não para mim, volta por mim, para me fazeres um último favor: com essa frieza cirúrgica com que partiste, amputa-me o coração de uma vez para que deixe enfim de doer.
1 comentário:
É engraçado!...
Vistas bem as coisas, também estou em "carne viva"...
Gostei muito do seu blog
Bj
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