Rocha, entenderia. Roca ... não.
Rochas, rochas, rochas e Mar a perder de vista.
Olho em volta e reparo nela. Os meus olhos detêm-se na figura sentada direita, com as mãos numa posição de abandono sobre os joelhos metidos para dentro.
Tem um ar inescrutável e não consigo deixar de a olhar. Meditará sobre o seu futuro? Ou sobre o seu passado? Não faço ideia. Não ouso aproximar-me, poderia incomodá-la. Lentamente, o semblante quase impassível muda, ostentando agora meia sugestão de sofrimento interior. As sobrancelhas estão franzidas e poderia jurar que morde o lábio. Indecisa? Aflita? Não sei.
Alguns turistas vagueiam tirando fotografias. Ignoram-na como se ali não estivesse, caminham até se deter em frente dela, falando muito alto.
"Olha-m'isto! E se eu caísse daqui ??"
"Pára com as palhaçadas, pá! Ouviste ?!"
"Não sejas chata, vá ... anda cá olhar para o mar, vê lá que lindo!"
Aproximam-se da beira da falésia, a menos de um metro dela, como que inconscientes da sua presença. Caminham demasiado perto do precipício até chegarem ao pé de mim.
"Então, tirou alguma foto gira ?" Sorrio sem responder.
"Deve ser estrangeiro, não lhe ligues e vamos."
"Cambada de bifes, pensam que isto é tudo deles ..."
Afastam-se, barulhentos como chegaram, pisando chorões. Em breve não passam de um ruído distante de risos e exclamações.
Então ela levanta-se e reparo que está descalça. Dirige-se para o sítio onde ainda há pouco estavam os incómodos turistas e olha para baixo. O meu coração falha uma batida. Estará a pensar atirar-se dali?
Quero ir até ela, dissuadi-la, dizer-lhe que deve haver decerto algo por que viver - mas não consigo mover-me, hipnotizado por aquela imagem em movimento sereno.
Avança e recua ao longo do rebordo, olhando, medindo, espreitando.
A dada altura senta-se no chão com os pés pendurados pela beira do abismo. Quero chamá-la mas nem um som me sai da boca. Apoia-se nas mãos e num instante desliza para baixo, abandonando o meu campo de visão.
Liberto da minha imobilidade, caminho depressa até ao sítio onde estava. Vejo-a descendo a escarpa como se fora um insecto com cola nos dedos, agarrando-se a pequenas reentrâncias e tufos de vegetação, com movimentos rápidos mas calculados. Em breve atinge a base do rochedo e as ondas lambem-lhe já os pés nus, batem nas rochas mais à frente e molham-na de salpicos. Trepa a uma dessas rochas e olha para o mar durante alguns minutos.
Subitamente, ante a minha mirada incrédula, despe-se e fica nua sob o sol, diante do mar cuja ondulação agreste levanta ao rebentar gotículas a vários metros de altura. Abre os braços como se colhesse a luz na pele, planta em forma humana absorvendo energia para a fotossíntese. Avança mais um passo e parece respirar fundo. Vira-se e vê-me ali em cima. Sorri e acena. Com a boca seca olho para ela, vendo detalhes em que não tinha reparado e que a tornam diferente de qualquer mulher que já tenha visto. Volta-se de novo e mergulha na cava da onda seguinte, para reaparecer uns metros à frente. Acena de novo e torna a mergulhar. Não a volto a ver.
Talvez seja do sol. Um golpe de calor. Uma insolação. Mas sinto-me calmo e lúcido, nada de febre nem dor de cabeça.
Talvez seja melhor não contar a ninguém o que presenciei porque não acreditarão em mim. Será pois o meu maior segredo: que aqui, onde a terra acaba e o mar começa, vi uma sereia voltar para casa.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Auto-retrato
Sou Vaso - minha alma de água
entorna-se a cada soluço
até ser praia em maré vazante
Sou Onda - atiro-me à rocha
tentando trazer comigo
pedaços de recordações
Sou Nuvem - passo ligeira
levada nas asas do vento
sem poder parar onde quero
Sou Estrela - visível ao longe
fora de alcance, embora
ninguém tente se aproximar
Sou Lua - astro apagado
brilho com luz emprestada
e eclipso-me da tua memória
Sou Pedra - espero, teimosa
ao fundo do mesmo caminho
que me mostraste um dia
Sou Mulher - e amo-te assim
sob todas as formas que contenho
sob todas as formas de mim
entorna-se a cada soluço
até ser praia em maré vazante
Sou Onda - atiro-me à rocha
tentando trazer comigo
pedaços de recordações
Sou Nuvem - passo ligeira
levada nas asas do vento
sem poder parar onde quero
Sou Estrela - visível ao longe
fora de alcance, embora
ninguém tente se aproximar
Sou Lua - astro apagado
brilho com luz emprestada
e eclipso-me da tua memória
Sou Pedra - espero, teimosa
ao fundo do mesmo caminho
que me mostraste um dia
Sou Mulher - e amo-te assim
sob todas as formas que contenho
sob todas as formas de mim
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Das palavras
Tentei prender as palavras. Domá-las, querendo que cumprissem ordens não ditas.
Rebelaram-se, querendo ser livres, fluir quando e como lhes apetecesse sem que eu tivesse qualquer controle.
Quis contê-las - não consegui. Calá-las - falhei. Ignorá-las - e ensurdeceram-me de silêncios furiosos quando as quis de volta.
Em silêncio fizemos tréguas, as palavras e eu.
Já não as tento conter. Peço-lhes apenas que se movimentem, que mudem de lugar, que tragam os seus sinónimos e familiares. Têm cumprido, permitindo-me expressar ideias e sentimentos. Já não tento aprisioná-las no meu espírito.
As palavras são livres. Não sou dona delas nem elas de mim.
Sentimo-nos bem assim...
Rebelaram-se, querendo ser livres, fluir quando e como lhes apetecesse sem que eu tivesse qualquer controle.
Quis contê-las - não consegui. Calá-las - falhei. Ignorá-las - e ensurdeceram-me de silêncios furiosos quando as quis de volta.
Em silêncio fizemos tréguas, as palavras e eu.
Já não as tento conter. Peço-lhes apenas que se movimentem, que mudem de lugar, que tragam os seus sinónimos e familiares. Têm cumprido, permitindo-me expressar ideias e sentimentos. Já não tento aprisioná-las no meu espírito.
As palavras são livres. Não sou dona delas nem elas de mim.
Sentimo-nos bem assim...
quinta-feira, 30 de julho de 2009
As cores do silêncio
Azul/roxo nas minhas mãos tão frias
azeitona/avelã rodeados de lágrimas no espelho
rosa-desmaiado nos meus lábios secos
que não dizem alto o teu nome
branco-gelo, branco de luto
pelo que acabou quase sem começar
amarelo-deserto à minha frente
na longa caminhada até ao Mar
esse verde/azul/branco que me espera
negro-noite será a minha vela
vermelho-sangue a minha bandeira rasgada
deixadas para trás as falésias
castanho tingido de desilusão
onde vives em torre-marfim
de novo serei púrpura-realeza
até ao fim, rainha de mim
azeitona/avelã rodeados de lágrimas no espelho
rosa-desmaiado nos meus lábios secos
que não dizem alto o teu nome
branco-gelo, branco de luto
pelo que acabou quase sem começar
amarelo-deserto à minha frente
na longa caminhada até ao Mar
esse verde/azul/branco que me espera
negro-noite será a minha vela
vermelho-sangue a minha bandeira rasgada
deixadas para trás as falésias
castanho tingido de desilusão
onde vives em torre-marfim
de novo serei púrpura-realeza
até ao fim, rainha de mim
terça-feira, 28 de julho de 2009
Fria lembrança
Há tanto tempo não te sinto
que esqueci já os teus passos
e o cheiro da tua pele
Misturam-se em mim as memórias
o som dos olhares
a cor dos sorrisos
a luz dos abraços
só o calor recordo com exactidão
pois as noites são agora, para mim,
sempre frias
e afogo num fofo edredão
a minha saudade.
que esqueci já os teus passos
e o cheiro da tua pele
Misturam-se em mim as memórias
o som dos olhares
a cor dos sorrisos
a luz dos abraços
só o calor recordo com exactidão
pois as noites são agora, para mim,
sempre frias
e afogo num fofo edredão
a minha saudade.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Gizé
No extremo dos meus pulsos roliços
as mãos outrora quentes que estreitaram as tuas
nada mais são que simples coadores
frios como se de metal fossem
por onde se esvaem os restos dos sonhos que acolhi
alimentei
libertei
no meu peito agora árido
deserto do teu calor
e o meu corpo em esfinge se tornou
monstro de pedra questionando a noite
com perguntas sem qualquer resposta
as mãos outrora quentes que estreitaram as tuas
nada mais são que simples coadores
frios como se de metal fossem
por onde se esvaem os restos dos sonhos que acolhi
alimentei
libertei
no meu peito agora árido
deserto do teu calor
e o meu corpo em esfinge se tornou
monstro de pedra questionando a noite
com perguntas sem qualquer resposta
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Cru
Vem-me o desejo de amaldiçoar
a hora em que te reencontrei
pois é agora mais acesa do que nunca
a luz estéril do vazio que me deixaste
Seca, sedenta de ti
a saudade impera, só ela abunda
só ela me inunda as noites insones
e é da saudade que bebo
o agridoce licor da tua recordação
a hora em que te reencontrei
pois é agora mais acesa do que nunca
a luz estéril do vazio que me deixaste
Seca, sedenta de ti
a saudade impera, só ela abunda
só ela me inunda as noites insones
e é da saudade que bebo
o agridoce licor da tua recordação