quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pessoalidades

Pessoa e as suas palavras.
Meditação; inspiração.
Vontades redespertas, gritos calados.

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde que quer que estejamos.

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde quer que moremos, tudo é alheio
Nem fala língua nossa.
Façamos de nós mesmos o retiro
Onde esconder-nos, tímidos do insulto
Do tumulto do mundo.
Que quer o amor mais que não ser dos outros?
Como um segredo dito nos mistérios,
Seja sacro por nosso.
{Ricardo Reis}
Dizia o outro, heterónimo do mestre, duas realidades dissonantes escondidas num só, pessoa, substantivo, Pessoa de nome, não és Pessoa como o mestre, mas é o teu nome e não o dele que digo baixinho quando em sonhos te vejo a face, suspeito que nessa altura sorria, sorrindo a dormir, sorrindo sonhando em estar a teu lado me fico.

Amores vários teve, essa pessoa Pessoa, tantas palavras para Lídia, amor sereno, momentos partilhados de infância adulta, talvez adulta infantilidade, mas outras existiram, outras o terão ouvido, quererias fazer de mim Lídia honrando a pessoa e o Pessoa, e deixarmo-nos ficar à beira rio sem desassossegos?

Eu é que não, não o quero, sujeito-me ao silêncio porque tem que ser, mas não gosto, não quero, antes o desassossego, o amor não é mais sagrado se for secreto, nem mais doce, é sim miríade de pequenos momentos de deleite e manancial de grandes momentos felizes quando assumido, quando vivido sem medos, que não seja sacro mas sim humano, como humana sou e tu és, e como humana te desejo, como humana te amo mas de forma tão próxima ao divino porque divina é a união quando é por ambos desejada.

Como se cada beijo
Fora de despedida,
Minha Cloe, beijemo-nos, amando.
Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia;
E que no mesmo feixe
Ata o que mútuos fomos
E a alheia soma universal da vida.
{Ricardo Reis}

Lídia não quero ser, toma a minha mão, esculpe-me Cloe nos teus sentidos porque quero beijar-te e sentir-te como se a última hora estivesse a chegar, o barco ou o avião ou o último comboio-jacto para fora da Terra e anos-luz nos passassem a separar, não doeria talvez mais do que dói agora que tanto te quero, que tanto me quero dar-te, dar-me, dar-me-te dando tudo toda eu tudo de mim, mas só uma lágrima rebelde toca estes lábios que quisera fossem tomados de assalto pelos teus para de seguida deslizarmos da voracidade do desejo adiado para a doçura do tempo esquecido e do tempo que fica longe, muito longe quando se beija com toda a alma, fusão, partilha, sinfonia de almas vibrando harmonicamente, soma universal da vida, esta mesma vida em cujo caminho anseio os teus passos junto aos meus.


E na folha jorram todos os sentimentos feitos palavra, diferentes, belas as de Pessoa e pobres as minhas, iguais talvez em intensidade, Pessoa e eu, fingidores ambos de verdades escondidas.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Até sempre

De tantas palavras
proferidas
tantos risos, emoções
tantas coisas
tantos momentos
houve algo que não disseste
esperando talvez
ter tempo
como se o tempo
pudesse ser dominado
tido
controlado
como se não fosse ele
que nos tem a nós
presos nos fios
nas voltas da teia
nas voltas da vida
esta puta de vida
que hoje te levou...
Deixaste um vazio
que tento preencher
com a palavra
entre tantas palavras
que não chegaste a dizer
a mesma palavra
que não chegaste a ouvir:
ADEUS, amigo, ADEUS
Até qualquer dia
Até sempre!

quarta-feira, 24 de março de 2010

Gold

Sabes?
Há momentos dourados...
Momentos em que se pode estar falido e ainda assim parecer que toda a riqueza do mundo nos caiu à frente.
Momentos em que se pode estar doente e mesmo assim parecer que vamos viver para sempre.
Momentos como aquela tarde em que me soube bem, me soube tão bem rever-te!
Olhar-te e ver os pormenores de perto, ver em que tinhas mudado
Estar um pouco contigo à luz do sol invernal
Voltar a sorrir, a conversar, a rir juntos, como velhos, velhos amigos

Depois...
Um abraço, terno, de despedida - que me fez querer pedir-te que não fosses embora
Um abraço quente que me fez sentir de novo, por um momento, no meu porto seguro
Aconchegada e a salvo de todas as tempestades que pudessem vir...
Senti-me em casa num abraço teu

Sabes?
Por um instante, um pequeníssimo instante, voltei a sentir as asas a abrir e as forças a voltarem-me para aguentar com tudo o que a vida me atire
E o adeus, um beijo tão fugaz como o roçagar das asas de uma borboleta
Fez-me sentir... feliz.

Quem me dera que todos os meus dias fossem assim.
Dourados.

Carne viva

Carne viva. Sim, estou em carne viva.
Ninguém sabe, ninguém repara. Apenas comentam que pareço mais sisuda, mais calada do que o costume, eu, que sempre falava com um secreto sorriso ao canto dos lábios que mais ninguém entendia.
Arde e não posso aplicar qualquer bálsamo, não posso coçar, não posso sequer aliviar a intensa sensação de queimadura com um pouco de água.
Escorre provavelmente uma lenta aguadilha amarelada cujo trajecto irrita os sítios por onde passa. Daí que cada vez doa e arda mais.
Provavelmente porque não a vejo, não vejo nada.
Entendo finalmente o que dizem os amputados, que têm comichão, que têm dores no membro que perderam.
Entendo-os porque aqui, onde ninguém consegue ver, há uma ferida supurante, escondida, carne em carne viva que dói, que arde, vazio onde ainda sinto o pedaço de coração que me foi arrancado à força quando me disseste adeus, tão imperfeitamente cauterizado pelo gume gelado do silêncio que deixaste para trás.

Estou em carne viva e isso dói, mais do que possas imaginar.
Por isso volta, volta por um breve momento mas não para mim, volta por mim, para me fazeres um último favor: com essa frieza cirúrgica com que partiste, amputa-me o coração de uma vez para que deixe enfim de doer.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Apenas

Diz-me apenas
se vale a pena
sentir
sofrer
Diz-me apenas
se vale a pena
esperar
lutar
Diz-me apenas
se vale a pena
continuar
a amar

Nas noites insones, chamo baixinho a tua recordação porque é a única coisa que pude reter.
Desenhei em mim a tua ausência, moldando-a em palavras. No meu peito se recorta essa silhueta que ninguém sabe ser tua.
É teu o vazio à espera de ser preenchido - porque só tu me completas. Só tu fazes de mim um Ser maior do que o corpo que ocupo.

És o Oceano e eu o vento e o voo.
Nas noites insones, confinada a este corpo comezinho, chamo em segredo por ti.
Ouves-me? Virás um dia dar-me a mão para juntos fazermos dos dias o Céu e completar o horizonte?
Nas tuas águas o nosso futuro.

Vou navegar ou naufragar?
Diz-me apenas...

quarta-feira, 10 de março de 2010

Fim de viagem

Sento-me ao sol, num banco de pedra gasta.
Olho para a concha das minhas mãos: vazia. Os sonhos que ali habitaram, como pérolas, quebraram-se como um barco numa tempestade oceânica, esfumaram-se como nuvens desfeitas pelo vento marítimo, desapareceram como pedras que se afundam nas profundezas.
Devia aproveitar a corrente, subir a um lugar alto e levantar voo. Devia. Mas desabituei-me e perdi a vontade de voar sozinha por períodos longos.
Suspiro e recordo.

Sonhei que fôssemos Mar e quis que as nossas águas comungassem até que ninguém soubesse ao certo onde um terminava e o outro começava. Quis que fôssemos como as águas mediterrânicas, onde não se tem a certeza dos limites do Jónico ou do Adriático... juntos, lado a lado, partilhando uma fronteira amorosamente difusa e invisível. Juntos - mas não o mesmo, partilhando espaços e mantendo separadas as identidades.

Sonhei que fôssemos Navegantes, enfrentando ondas e tempestades, ventos e calmarias, sóis abrasadores e noites estreladas. De mãos dadas partilhando os momentos de uma longa viagem.
Mas tu partiste sem mim rumo ao Oceano, grande e bravio. Entre nós se agigantaram as Colunas de Hércules e eu fiquei para cá do estreito, sulcando águas menos profundas e ondas mansas onde as minhas lágrimas se perderam, água salgada na água ainda mais salgada, as mãos desertas das tuas.

Atraquei o barquito agora inútil que um dia quisera ser escuna e onde quis que para sempre navegássemos juntos, recolhi as velas tombadas e desci para o cais. Ficou como eu, em doca seca, o bojo arredondado sem ondas que o embalem, a quilha sem um destino para onde ir.
Afastei-me sem olhar para trás, caminhei ainda com pernas de mar até o primeiro jardim que se me apresentou, sentei-me e aqui me deixei ficar, olhando para as mãos.

Sim, porque nestas mesmas mãos que se entrelaçavam nas tuas eu trazia sonhos - luminosos mas sólidos, como pedras preciosas - e dentro de mim algo que julgava serem projectos, realidades futuras adiadas por conveniências mais burocráticas do que necessárias.
Oh, era capaz de voar como um falcão peregrino, tinha asas maiores que as de uma águia e no olhar a certeza do destino para onde ia, tinha o mar como horizonte e a terra a meus pés.
Hoje? Tenho sobre as asas dobradas um xaile rasgado que não me aquece e aos pés um monte de cacos, fragmentos dos sonhos que guardava como tesouros.

Os arrojados projectos, tornados dúbios, são agora meras fantasias, baças, magras, esquálidos reflexos dos seus antecessores, mas que por vezes ainda me apaziguam um pouco a alma e por isso as escondo, ao cantinho, no mesmo bolso do coração onde te guardei a ti, até ao dia em que a dor seja maior do que eu.

Até lá, acredito ainda que o fim é algo em aberto.
Que existem possibilidades não exploradas, meios, rotas ainda por descobrir.
Que existam sonhos inquebráveis que se tornam realidades incontornáveis.
Acredito, e às vezes ainda sonho.

Então, talvez uma destas noites os nossos sonhos se toquem, pontes para um reino paralelo.
Talvez esta noite, ou uma destas noites, nesse mundo irreal, possa de novo estar um pouco contigo.
Se assim for, não estranhes se num amanhã qualquer acordares com uma recordação.
Porque uma destas noites, no mundo dos sonhos, voltarei a voar - e procurar-te-ei para te segurar nas mãos e dizer-te uma vez mais que te amo.

Até lá, aqui me fico. Sentada ao sol, contemplando as mãos em concha.
Vazias de esperanças e de sonhos.

terça-feira, 9 de março de 2010

Barro

Moldo o indefinido cá dentro, querendo gritar ao mundo o que me sufoca. Moldo o pesar e o medo, libertando-os como pássaros negros crocitantes. Moldo o vazio da tua ausência, condensando-a num esconso da alma para que doa menos.
Como barro, moldo em palavras todo o meu sentir a que uma lágrima fugidia vem emprestar o seu brilho salgado.
Mas desfaço tão imperfeita escultura, com receio que descubram toda a improbabilidade do sonho que perversamente me cobre as noites como um manto invisível.

Secretamente, moldo a tua silhueta no meu peito, à espera que a venhas preencher.