segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Nas ondas do Ar

Nas costas do vento deslizas
como que sonhando acordado
sobes, desces, rodopias
volteias como se surfasses
nas ondas do ar

E corres voando
e voas correndo
contra o vento quente
e digo-te adeus

Vejo-te ao longe, já longe
confundido com o horizonte
perco-te a silhueta na distância
onde o vento te levou deslizando
nas ondas do ar

E corres voando
e voas correndo
contra o vento frio
e digo-te adeus

Espero-te no sopé da montanha
para onde voltas, hesitante,
cansado, transido de frio,
caminhando, já nem voas
nas ondas do ar

E na noite fria aninha-te em mim, deixa-me ser-te abrigo
E na noite de cansaço aninha-te em mim, deixa-me ser-te energia
E na noite de desalento aninha-te em mim, deixa-me ser-te apoio
E amar-te, amor, amar-te

Na noite encantada voamos
juntos, amor, contra o vento
nas ondas do ar

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Pianíssimo

Dançam meus olhos ao ver-te
sopram faíscas como pirilampos
e contam a alegria que escondo
atrás de um pequeno sorriso

Voam as palavras veladas
como borboletas que se cortejam
entre as frases que dizemos
para ouvintes distraídos

Mas os olhos tudo dizem
as perguntas, as dúvidas
A saudade subitamente apagada
quando se alinham com os teus

De olhos nos olhos sob o luar
descerram-se então os lábios...


E pronunciamos em surdina o segredo
absoluto do Amor

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Às cinco no Verão

Faz calor na sala. Torna-se insuportável permanecer ali sentada.
Saio para uma varanda tão larga que parece um terraço e acendo um cigarro. As teias de aranha voltaram a acumular-se no interior da balaustrada como enfeites de um Natal esquecido. Evito encostar-me para não sujar as calças.

Fruto de uma brisa leve que ondula os ramos dos pinheiros, está mais fresco na rua do que lá dentro... quem me dera poder trazer os tarecos para aqui. Iúcas espreitam do subnível das floreiras, enquanto no superior os canteiros quadrados depositados na sombra são ninhos de arbustos semi-ressequidos.
Outras árvores se perfilam entre os telhados. Dos ramos pendem berloques penugentos, como cerejas gigantescas. Não sei que árvores são, mas gosto de observar a dança dos seus braços lenhosos.

No céu passam velozes alguns pardais. Mais acima, outros pares de asas assemelham-se a andorinhas. Serão?
As gaivotas não andam hoje por aqui, sinal de que o mar estará sossegado. Quando as vejo sobrevoar o terraço piando, recordo o ditado e sorrio.

Atiro o cigarro para o cinzeiro metálico do canto e o fumo de aroma a cereja fica a evolar-se do tabuleiro. Com o dedo dou um piparote numa formiga atrevida que trepou pelo meu bloco de notas pousado sobre o murete da varanda.
Não há aqui comida para ti, pequenina. Nem vale a pena deixares o teu rasto.
Eu e o meu bloco só cá estamos de passagem.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pessoalidades

Pessoa e as suas palavras.
Meditação; inspiração.
Vontades redespertas, gritos calados.

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde que quer que estejamos.

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde quer que moremos, tudo é alheio
Nem fala língua nossa.
Façamos de nós mesmos o retiro
Onde esconder-nos, tímidos do insulto
Do tumulto do mundo.
Que quer o amor mais que não ser dos outros?
Como um segredo dito nos mistérios,
Seja sacro por nosso.
{Ricardo Reis}
Dizia o outro, heterónimo do mestre, duas realidades dissonantes escondidas num só, pessoa, substantivo, Pessoa de nome, não és Pessoa como o mestre, mas é o teu nome e não o dele que digo baixinho quando em sonhos te vejo a face, suspeito que nessa altura sorria, sorrindo a dormir, sorrindo sonhando em estar a teu lado me fico.

Amores vários teve, essa pessoa Pessoa, tantas palavras para Lídia, amor sereno, momentos partilhados de infância adulta, talvez adulta infantilidade, mas outras existiram, outras o terão ouvido, quererias fazer de mim Lídia honrando a pessoa e o Pessoa, e deixarmo-nos ficar à beira rio sem desassossegos?

Eu é que não, não o quero, sujeito-me ao silêncio porque tem que ser, mas não gosto, não quero, antes o desassossego, o amor não é mais sagrado se for secreto, nem mais doce, é sim miríade de pequenos momentos de deleite e manancial de grandes momentos felizes quando assumido, quando vivido sem medos, que não seja sacro mas sim humano, como humana sou e tu és, e como humana te desejo, como humana te amo mas de forma tão próxima ao divino porque divina é a união quando é por ambos desejada.

Como se cada beijo
Fora de despedida,
Minha Cloe, beijemo-nos, amando.
Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia;
E que no mesmo feixe
Ata o que mútuos fomos
E a alheia soma universal da vida.
{Ricardo Reis}

Lídia não quero ser, toma a minha mão, esculpe-me Cloe nos teus sentidos porque quero beijar-te e sentir-te como se a última hora estivesse a chegar, o barco ou o avião ou o último comboio-jacto para fora da Terra e anos-luz nos passassem a separar, não doeria talvez mais do que dói agora que tanto te quero, que tanto me quero dar-te, dar-me, dar-me-te dando tudo toda eu tudo de mim, mas só uma lágrima rebelde toca estes lábios que quisera fossem tomados de assalto pelos teus para de seguida deslizarmos da voracidade do desejo adiado para a doçura do tempo esquecido e do tempo que fica longe, muito longe quando se beija com toda a alma, fusão, partilha, sinfonia de almas vibrando harmonicamente, soma universal da vida, esta mesma vida em cujo caminho anseio os teus passos junto aos meus.


E na folha jorram todos os sentimentos feitos palavra, diferentes, belas as de Pessoa e pobres as minhas, iguais talvez em intensidade, Pessoa e eu, fingidores ambos de verdades escondidas.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Até sempre

De tantas palavras
proferidas
tantos risos, emoções
tantas coisas
tantos momentos
houve algo que não disseste
esperando talvez
ter tempo
como se o tempo
pudesse ser dominado
tido
controlado
como se não fosse ele
que nos tem a nós
presos nos fios
nas voltas da teia
nas voltas da vida
esta puta de vida
que hoje te levou...
Deixaste um vazio
que tento preencher
com a palavra
entre tantas palavras
que não chegaste a dizer
a mesma palavra
que não chegaste a ouvir:
ADEUS, amigo, ADEUS
Até qualquer dia
Até sempre!

quarta-feira, 24 de março de 2010

Gold

Sabes?
Há momentos dourados...
Momentos em que se pode estar falido e ainda assim parecer que toda a riqueza do mundo nos caiu à frente.
Momentos em que se pode estar doente e mesmo assim parecer que vamos viver para sempre.
Momentos como aquela tarde em que me soube bem, me soube tão bem rever-te!
Olhar-te e ver os pormenores de perto, ver em que tinhas mudado
Estar um pouco contigo à luz do sol invernal
Voltar a sorrir, a conversar, a rir juntos, como velhos, velhos amigos

Depois...
Um abraço, terno, de despedida - que me fez querer pedir-te que não fosses embora
Um abraço quente que me fez sentir de novo, por um momento, no meu porto seguro
Aconchegada e a salvo de todas as tempestades que pudessem vir...
Senti-me em casa num abraço teu

Sabes?
Por um instante, um pequeníssimo instante, voltei a sentir as asas a abrir e as forças a voltarem-me para aguentar com tudo o que a vida me atire
E o adeus, um beijo tão fugaz como o roçagar das asas de uma borboleta
Fez-me sentir... feliz.

Quem me dera que todos os meus dias fossem assim.
Dourados.

Carne viva

Carne viva. Sim, estou em carne viva.
Ninguém sabe, ninguém repara. Apenas comentam que pareço mais sisuda, mais calada do que o costume, eu, que sempre falava com um secreto sorriso ao canto dos lábios que mais ninguém entendia.
Arde e não posso aplicar qualquer bálsamo, não posso coçar, não posso sequer aliviar a intensa sensação de queimadura com um pouco de água.
Escorre provavelmente uma lenta aguadilha amarelada cujo trajecto irrita os sítios por onde passa. Daí que cada vez doa e arda mais.
Provavelmente porque não a vejo, não vejo nada.
Entendo finalmente o que dizem os amputados, que têm comichão, que têm dores no membro que perderam.
Entendo-os porque aqui, onde ninguém consegue ver, há uma ferida supurante, escondida, carne em carne viva que dói, que arde, vazio onde ainda sinto o pedaço de coração que me foi arrancado à força quando me disseste adeus, tão imperfeitamente cauterizado pelo gume gelado do silêncio que deixaste para trás.

Estou em carne viva e isso dói, mais do que possas imaginar.
Por isso volta, volta por um breve momento mas não para mim, volta por mim, para me fazeres um último favor: com essa frieza cirúrgica com que partiste, amputa-me o coração de uma vez para que deixe enfim de doer.