quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Guia

Ali, o vento adormece.
A poucos metros os carros passam a velocidades desiguais, relembrando-me que o bulício continua perto. Mas alguns passos à frente deixo de os ouvir.
Caminho pela vereda entre árvores jovens e arbustos bem comportados, detenho-me junto ao muro baixo e liberto o olhar sobre o imenso azul. O espaço que partilhei contigo é o meu canto de paz, onde abro os braços para colher o calor do sol e saborear a brisa. Uns minutos de contemplação preenchem-me como se me recarregassem de ânimo. Pessoas passam sem me prestar atenção e agradeço-lhes silenciosamente o não quebrarem aqueles momentos frágeis em que evoco memórias e as integro no Eu.

Sigo o caminho de saibro até à esplanada e subo as pranchas de madeira onde os teus passos ecoaram ao lado dos meus. Sento-me no canto do costume, acompanhada de um livro e peço o chá do costume que deixo arrefecer lentamente. Alheio-me de tudo e toda a gente, imersa num mundo paralelo entre as páginas do livro da semana. As vozes soam mas não as ouço; só o murmúrio do mar, lá em baixo, sempre presente, me acompanha nesta viagem do espírito.



Retine um alarme interno no meu cérebro e olho para o relógio. Um último golo de menta quente-fresca e regresso pela vereda onde pela última vez as nossas mãos se encontraram. Questiono-me se alguma vez lá voltarás comigo, ciente de que ao menos nessa altura - se chegar - não te irás perder no caminho de volta.
Sento-me ao volante com as janelas abertas para que entre a brisa e olho uma última vez para o oceano, sempre igual mas sempre diferente, onde o meu coração sossega.

Respiro fundo e arranco, grata pelos pequenos intervalos de calma junto ao mar onde o teu eco me acompanha e regresso por fim à vida acelerada de todos os dias.

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