Uma tarde só para mim.
Chego ao areal imenso onde os meus pés se enterram. Desço o olhar para as minhas pernas, brancas de leite, que pouco sol apanharam este Verão - quase nem se notam as várias cicatrizes nos joelhos que provam que um slalom de bicicleta em terra batida não é grande ideia. Rio-me... há anos que não usava calções mas hoje simplesmente apeteceu-me.
Sento-me na areia dourada, as pernas cruzadas sustendo um livro que provavelmente ficará por ler. Apoio as mãos e deixo a cabeça descair para trás, recebendo o sol na cara.
Não se vê uma única nuvem.
Aqui o vento é uma constante, levantando carneirinhos nas ondas como cabeças de crianças irrequietas à passagem de algo interessante.
Mas quando dorme, como hoje, o mar torna-se num vasto chão espelhado, prata líquida à minha frente onde o sol vem despejar os seus raios. Só o som preguiçoso da ondulação rasa me prova que não é um quadro o que os meus olhos vêem.
Hoje desliguei-me do mundo para ter um bocadinho só meu. Deixei o telemóvel no carro; aliás, deixei tudo no carro menos o livro e as chaves. Sem contacto, sem identificação, sou um ser anónimo pousado na areia mansa. Sorrindo, deixo-me ficar assim, sem pensar em nada, recolhendo prazer da simples observação das pequenas franjas de espuma que se espraiam pachorrentamente a poucos metros dos meus pés.
Tanta paz nas pequenas coisas. Entre o Sol e o Mar.
1 comentário:
Um texto feito de harmonia... pleno de sensações em cada palavra :)
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