A das Maçãs é larga demais para o meu gosto; se estiver cheia, ou ficamos no meio da multidão com as suas crianças, bolas e cachorros ou afastamo-nos da confusão e ficamos longe do mar.
Prefiro esta. Uma extensão de areia mais comprida e com surpresas escondidas no extremo. Mais estreita: de qualquer ponto onde me sente consigo ver o oceano.
O estacionamento é caótico e creio que nunca conseguirão resolvê-lo a menos que deitem alguma coisa abaixo. Não me parece que o façam. Hoje, como de outras vezes, optei por deixar o carro ao pé de um restaurante com nome de ventania. É um dos meus locais favoritos no inverno - uma alta falésia, o mar bravo, o vento frio na cara e as mãos aquecidas por um pãozinho com chouriço acabadinho de sair do forno. Desde que não chova, claro.
Lembro-me de vir aqui na adolescência, quando já pouco faltava para terminar o ano lectivo. Quase todos levavam o fato de banho na mochila e no fim das aulas lá íamos no autocarro. Bola de volley, nada de protector, e raramente apanhávamos um escaldão. Risos, brincadeiras e muita, muita água.
De uma dessas vezes, à hora do regresso, estávamos ordeiramente à espera do autocarro; mas éramos talvez uns dez e o motorista avisou logo que não caberíamos todos. Meia hora até ao próximo chegar ... se calhar mais valia ... o que acham? Todos de acordo? Boa ideia, sim senhor! Então vamos! Doze km a pé, da praia até à Vila, entre anedotas e cantorias, cansados mas divertidíssimos. Entretínhamo-nos com pouco, realmente.
Rio-me ao recordar. E essas memórias arrastam outras. Pego numa delas e resolvo descer.
Percorro a estrada estreita e dirijo-me ao sítio onde a praia acaba e as arribas se levantam, bem ao fundo. Viro à esquerda, onde uma escada íngreme e enferrujada se cose à rocha. Subo com cuidado e a meio olho para cima e revejo o que me trouxe aqui: uma pegada de dinossauro que pouca gente sabe que existe. Não mudou de sítio (pequena gargalhada). Desço alguns degraus e vejo a prainha escondida, acessível apenas durante a maré baixa. Um parzinho enamorado aproveita o recato para se esquecer do resto do mundo nos braços um do outro.
De novo a enchente de recordações me traz um sorriso aos lábios. Volto a descer e sigo o passeio junto ao areal até acabar por me sentar em frente à velha marisqueira onde as navalheiras se juntavam às imperiais em desfile quando o calor e a falta de sombra tornavam impossível permanecer lá fora por muito tempo.
São muitas as memórias que me ligam a estes sítios.
Desfilo mais algumas no visor da minha mente antes de decidir arquivá-las de novo. Por agora limito-me a ficar aqui sentada com uma garrafa de água fresca e o omnipresente cheiro da maresia a acompanhar-me neste fim de tarde.
Sabes, gostaria que um dia aqui viesses comigo.
4 comentários:
Uma nostalgia tocante num texto lindo!
O convite final é cheio de ternura.
Siss, selo para ti.
E mais um beijito!
Belo e muito tocante...
Principalmente porque já me vi no meio de uma história assim.
Beijos
Que delicia... muito bonito :)
Beijo*
Volto mais tarde para ler seu cantinho :)
Fique bem.
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